16 de outubro de 2011

o tal do paraíso...


Pausa para editar. O paraíso encontrado foi Boa Vista... uma semana ali nasceu uma paixão pelo Spinguera, um carinho muito grande por sua dona Larissa e por todos os funcionarios que dividiam um sorriso sereno. Dali surgiu a sorte de conhecer Dani, um mitad cubano, metzo italiano que ensina a voar n'agua... Divido com vocês meus suspiros e respiros nestes dois videozinho...




26 de setembro de 2011

Tão longe, tão perto


*este texto foi originalmente produzido para a Revista Fórum, edição 84 e pode ser acessado aqui.

Há quase dois meses viajava pelo continente africano, passando por países em que pouco entendia a língua e a cultura local. Assim, pousar naquela colônia portuguesa que fica no mesmo Atlântico em que nasci, era algo alentador. Vinha do Marrocos, país que aos meus olhos brasileiros parecia muito fechado e, por conta disso, os primeiros sorrisos que recebi em Cabo Verde me fizeram não só me sentir em casa, mas também entender porque todos os gringos se apaixonam pelo "povo brasileiro". Com este retorno a casa, do outro lado do mar, Fórum inicia uma série de oito matérias percorrendo a África e conhecendo um pouco de sua cultura, história e, principalmente, da sua gente, enquanto nos preparamos para o Fórum de Dacar, no Senegal, em 2011.

A chegada a Cabo Verde


Estava um pouco cansada das cinco semanas no Marrocos onde me gritavam “No" sempre que levantava a câmera. Com este “trauma” saquei o equipamento pela primeira vez no mercado central da capital de Cabo Verde, a pequena Praia. Mal montei o tripé e escutei um alto "psiu". "Não é possível, até aqui?", lamentei pensando se tratar de alguma proibição em usar a câmera na rua. Na quarta vez que ouvi o tal "psiu", virei e escutei um sorridente "tira uma foto minha?". A voz vinha de um açougue onde se exibiam pedaços de boi e frangos mortos inteiros, e um homem com cara de mau camiseta de basquete norte-americano me fazia um sinal de hang-loose com os dedos. Pediu que tirasse fotos dos amigos, da namorada, e em poucos minutos eu já estava inserida e autorizada a fotografar livremente por ali.

Na semana seguinte, quando eu caminhava pela Cidade Velha, a primeira cidade europeia construída nas colônias africanas, as crianças se ofereciam para ficar em frente às lentes e logo após clicadas as mães me convidavam para entrar em casa, e chamavam os vizinhos para participarem da sessão fotográfica. Assim, caí em todos os estereótipos de encantamento que um estrangeiro no Brasil sente: o deslumbre pelo riso fácil da gente, pelo acolhimento, pela malemolência no andar das mulheres, pela miscigenação das cores.

Ao contrário de mim, quando os portugueses chegaram em Cabo Verde não receberam nenhum sorriso na recepção. Em 1460, o navegante português Dio Gomes, já cansado de tanto tempo no mar, avistou uma ilha e a batizou de Boa Vista. Quando desceu na ilha de paisagem lunar, não encontrou vivalma. Nas outras nove ilhas – que ganharam cada uma o nome do santo do dia da chegada – a história se repetiu: muita pedra, muita areia, pouca água doce e nenhum ser humano. Por ironia ou por referência a alguma região do Senegal que está de frente para as ilhas, os portugueses chamaram o arquipélago de Cabo Verde.

Pela posição estratégica – no Oceano Atlântico, na frente do Senegal e pouco abaixo do Mediterrâneo – entre o Velho, o Novo Mundo e as terras escolhidas pela metrópole como fornecedoras de escravos para as colônias, Cabo Verde logo se tornou o filho querido de Portugal. A primeira cidade – com seu forte e seu pelourinho – das metrópoles europeias nas colônias foi construída na Ilha de Santiago: Ribeira Grande, a primeira capital do país, hoje é chamada Cidade Velha. Segundo o escritor caboverdiano Corrêa e Silva "não há em toda a História da Humanidade nenhum complexo de transferência forçada de população que se lhe compara, quer em intensidade, quer na duração ou ainda em consequências para a configuração do mundo moderno”.

Ryszard Kapuscinski, que por 40 anos viajou pelo continente e morou na África como correspondente estrangeiro, explica em seu livro Ébano que as ilhas da costa africana eram de grande utilidade para navegadores, negociantes e saqueadores, pois "localizam-se longe bastante dos africanos para que eles possam alcançá-las em suas toscas embarcações, mas estão próximas o bastante do continente para que seja possível estabelecer e manter contato com ele. A utilidade dessas ilhas cresceu especialmente na época do comércio de escravos, já que muitas delas foram transformadas em campos de concentração. Esse comércio teve um papel fundamental na história da África. Milhões de africanos – as estimativas indicam de 15 a 30 milhões –, de pessoas raptadas e levadas, em condições subumanas, para o outro lado do Atlântico. Os traficantes de escravos despovoaram o continente e o transformaram num campo sem vida. Até hoje a África ainda não conseguiu superar esse trauma, esse pesadelo".

Cabo Verde foi um destes pontos estratégicos da Coroa lusitana e os escravos ali “armazenados” seguiam para as plantações de algodão, café e açúcar do Brasil e Antilhas. Os provenientes do arquipélago, por terem passado por um processo de "civilização" e por terem noções de português tinham melhores preços no mercado do tráfico negreiro brasileiro. Dos escravos que construíram Cabo Verde mesclados com os portugueses e andaluzes surgiu a população do país. Ao contrário de muitos outros países africanos e de forma semelhante ao Brasil, o processo de miscigenação foi grande, e nas ilhas se encontra uma grande diversidade de tonalidades de pele.

A formação da identidade


Cabo Verde “cresceu” escutando da metrópole que seus habitantes eram “brancos de segunda” ou “pretos de primeira” e, assim, ser branco virou símbolo de status. "No entanto o que percebo é que os caboverdianos continuavam sendo indivíduos ainda considerados pelos portugueses de segunda categoria, embora (…) o colonizador os tivesse levado a crer a que eram superiores ou melhores que os africanos do continente, porque estavam mais dispostos a essa fusão étnica, cultural e religiosa", explica Deniele Ellery no livro Identidades em trânsito. A miscigenação em Cabo Verde foi muito mais bem sucedida que nas demais colônias. Desdobramento disto é que nos recentes tempos de colônia os caboverdianos ocuparam os mais importantes papéis administrativos nas demais colônias lusófonas africanas . Em Guiné Bissau, por exemplo, nas décadas de 1920, 30 e 40, cerca de 70% dos oficiais da administração pública eram de Cabo Verde ou descendentes. Ainda hoje os habitantes da ilha têm a fama de capatazes entre os angolanos, moçambicanos ou guineenses.

Com esta proximidade com a metrópole, a identidade do país foi criada de costas para o continente ao qual pertence. Muitas vezes contei de minha viagem nas ruas de Praia, falando que depois de minhas cinco semanas no Marrocos enfim me sentia chegando a um lugar que tinha como um conceito de "África". A resposta era sempre "mas aqui não é África ainda". A jovem e ilustre cantora Mayra Andrade, que gravou seu último disco com o produtor brasileiro Alê Siqueira pouco antes de um show em Portugal, na véspera de minha chegada no arquipélago, já me havia adiantado: "Sabia que às vezes eu vejo muito mais a África no Brasil que em Cabo Verde?". Somente depois da independência, em 1975, manifestações culturais “africanas” como o tambor, voltaram a ser permitidas no país. Mayra, apesar de se ver sempre comparada com o ícone cultural do arquipélago, Cesária Évora, atribui parte importante de sua formação musical a músicos como Caetano Veloso e Marisa Monte.

Mas não apenas na música a identidade caboverdiana foi influenciada pelo "grande irmão Brasil". Se hoje em qualquer vendinha do país você encontra Glória Pires e em qualquer papo alguém lhe fala de algum programa da Record, o fato é que a influência brasileira atracou aqui bem antes da televisão. Gilberto Freyre – que serviu recentemente como suposta “base teórica” do senador Demóstenes Torres, em seu tosco revisionismo histórico em que atribui a culpa da escravidão aos africanos – influenciou parte da elite cultural do país. Assim como no Brasil, havia grande dificuldade de manutenção de laços étnicos e de parentesco no arquipélago, uma vez que os escravos foram separados de seus familiares, retirados de suas terras e dispersos pela África, Europa e América. Os que permaneceram nas ilhas participaram de um intenso processo de miscigenação.

Freyre analisa a miscigenação como produto prazeroso da integração das diferentes raças. Segundo ele, a mulher morena era a preferida pelos portugueses para o "amor físico". A visão antropológica que endeusa o mulato me foi apresentada como papo de botequim durante minha visita à Ilha de Boa Vista, a terceira maior do arquipélago. Ali conversei com um senhor francês que, assim como eu, se deslumbrava com a simpatia dos habitantes locais: "O povo daqui é muito bom, muito honesto. O único problema são os senegaleses: eles vêm e ocupam todos os espaços, dominam tudo, prejudicam o povo pacífico e honesto do arquipélago". Os senegaleses, pretos e não miscigenados com os europeus, são apontados pelo francês como elemento negativo no país. Da mesma forma, muitos caboverdianos se referem a todos os africanos imigrantes como manjacos, que é uma tribo da Guiné-Bissau.

Um dos pesquisadores que se apropriou das teorias de Freyre para explicar Cabo Verde foi o português Almerindo Lessa. Afirmando-se como não preconceituoso e se contrapondo à corrente da antropologia "anti-miscigenadora", ele afirma que a miscigenação em Cabo Verde foi uma necessidade histórica, considerando o mestiço alguém que favoreceu o patrimônio genético do homem, portanto um "método positivo na dinâmica das populações". Na contramão, Hernandez reflete que a ideologia da mestiçagem no arquipélago acaba por criar outra que pretende "camuflar diferenças e desigualdades, encobrindo a verdadeira razão por que o mulato passou a ser positivo, que consistiria no fato de ele, além de culturalmente também geneticamente assimilar as características ‘superiores’ do europeu".

Assim, ele defende que o caboverdiano deve ser pensado como resultado de uma "dupla assimilação" de uma incorporação de elementos europeus e africanos. Desta forma, Hernandez estaria mais ligado à corrente defendida por Marilena Chauí, que defende que falar em assimilação indica disfarçar a violência, a desigualdade e a imposição pelas quais passaram os negros durante o período de escravidão colonial e de tentativas de aculturação. Assim, da mesma forma que, segundo Da Matta, a fábula das três raças (africanos, indígenas e europeus) foi criada para unir e apaziguar o sistema social, político e econômico do Brasil, viabilizando assim a manutenção das elites sem revoltas nem conflitos sociais, em Cabo Verde ela serviu para aproximar os mestiços da metrópole. Em 1954, por exemplo, Portugal criou o Estatuto dos Indígenas das Províncias da Guiné, Angola e Moçambique, que definia que os indivíduos destes países, por não possuírem educação, hábitos pessoais e sociais julgados necessários, não eram considerados cidadãos portugueses de forma integral. Os caboverdianos, entretanto, já eram considerados portugueses desde o liberalismo. Neste mesmo momento, estudantes da colônia iam para a metrópole estudar e, ironicamente, aí começaria o processo de independência de Cabo Verde e de diversos outros países africanos.

A independência e um povo em trânsito

A extração mineral, indústrias, estradas e o avião modificaram a vida de sociedades tradicionais africanas no século 19. Mas a Conferência de Berlim (1883-85) havia acabado de recortar o mapa do continente e dividi-lo entre, principalmente, Inglaterra e França, mas também Bélgica, Alemanha e Portugal. O tráfico negreiro "deixou na psique do africano a mais profunda e mais indelével das marcas: o complexo de inferioridade. Eu, negro, sou aquele que o traficante branco pode sequestrar do lar ou do campo, acorrentar, embarcar num navio, vender, e depois obrigar a um trabalho infernal sob a ameaça de chicotadas. Quando a Segunda Guerra Mundial estourou, o colonialismo vivia seu apogeu. Entretanto o decurso da guerra e sua acepção simbólica deram início à decadência e ao fim do sistema", explica Kapuscinski.

Quando os colonos franceses e ingleses são convocados para a Segunda Guerra Mundial – e excepcionalmente permitidos de sair do continente – deparam-se com uma situação dos brancos bem diferente da que conheciam em casa. O luxo e a pompa dos senhores nas colônias em nada se assemelhava ao desespero maltrapilho dos soldados. Assim o mito de o branco ser melhor, mais forte, superior, um enviado de Deus, ou seja, a base racial da dominação, caía. Os negros das colônias francesas assistiram Paris, capital de sua metrópole, ser conquistada; os anglófonos entram na Alemanha e observam os brancos esqueléticos saindo dos campos de concentração; todos veem brancos que choram, que se desesperam, que fogem, que surtam. O conceito de barbárie usado pelos brancos para justificar a dominação era aplicado de forma requintada por brancos contra brancos. Na volta para casa, estes soldados ingressam e criam os partidos que fariam as revoluções.

Ao mesmo tempo, a elite das colônias portuguesas viajava para estudar em Lisboa. Por lá descobriam que, se a Europa aplicava nos outros continentes os conceitos de dominação e imperialismo, eles idealizavam para suas terras as noções de liberdade, igualdade, nação e pátria. A partir disso, a elite intelectual das colônias lusófonas começa a pensar seus próprios países. Lá no meio da metrópole se encontram Amílcar Cabral (1924 -73), Agostinho Neto (22-79), Samora Machel (33 - 86): líderes das revoluções em Cabo Verde e Guiné Bissau, Angola e Moçambique. No exterior eles entendem o que é pertencer a uma nação.

De volta a Cabo Verde, o engenheiro guineense Amílcar funda o Partido Africano para a Independência de Guiné-Bissau e Cabo Verde (PAIGC) em 1959, que ficou na ilegalidade por quatro anos. Amílcar, que não chegou a ver os países livres, entusiasmava os militantes dizendo: "Vamos pensar por nossas próprias ideias, e não importar ideias". O partido opta pelo socialismo e com apoio da URSS, República da China, Reino do Marrocos e Cuba se militariza, e passa a realizar treinamentos táticos. Pela geografia de Cabo Verde, decidem iniciar a luta armada em Guiné Bissau. Os caboverdianos eram a força intelectual do partido enquanto os guineenses entravam em campo, reproduzindo em certa medida o quadro imposto pela metrópole. Quando os guineenses logram a independência em 24 de setembro de 1974, assume a presidência Luiz Cabral, irmão de Amílcar. Não é difícil adivinhar que seis anos depois seguiria uma guerra civil que tiraria o caboverdiano do poder e condenaria o país a uma instabilidade econômica e política presente até hoje. Cabo Verde se tornou independente em 1975.

Atualmente o país tem relativa estabilidade política, embora faltem itens básicos à maioria da população como água e energia; os produtos são importados e o custo de vida altíssimo. Há um excesso de mão de obra qualificada formada no Brasil e Portugal, e pouco emprego para eles no país. O resultado é que há 400 mil caboverdianos que vivem nas ilhas e quase um milhão fora – se considerarmos a primeira e a segunda geração de migrantes. O governo dá nacionalidade para a segunda geração e o envio de remessas é uma importante fonte de renda do país. Quando perguntei para Mayra Andrade – que saiu pela primeira vez do país aos sete anos e já morou no Senegal, Angola, Alemanha e há oito anos está em Paris – se ela se sentia caboverdiana ou se já havia “perdido as raízes”, ela fez cara de susto. "Sou caboverdiana, claro! O caboverdiano, ele já está preparado para ir. Às vezes acho que ele só vai para poder voltar e dizer, cheguei!", se diverte. Ao perguntar para a miúda Melinda, de 12 anos, o que ela queria ser quando fosse da minha idade ela suspirou e disse: "Quero ter uma casa bem bonita em outro lugar". "Outro lugar? Aqui em Cabo Verde ou fora?", retruquei. "Fora… no Brasil, em Paris… porque lá deve ser tão elegante", me explicava, deixando claro que por aqui desde pequeno se olhava para fora.

Assim como Mayra em Portugal me falava de sua pátria mesclando nostalgia e distanciamento crítico, foi em terras distantes e unidas por um mesmo passado e escravos coloniais que pude entender alguns aspectos da miscigenação e da história brasileira – a questão de falarmos como língua materna a língua do colonizador é algo a que só atentei aqui de longe, em contraste com o crioulo caboverdiano e com o árabe e o berbere marroquino em lugar do francês da metrópole. Com este périplo africano, espero que também os leitores de Fórum tenham a oportunidade de viajar comigo e sair um pouco de dentro de nossa cultura para vê-la melhor.

Eliza Capai viaja pela África desde janeiro de 2010. Ela já percorreu o Marrocos, Cabo Verde, foi barrada no aeroporto do Senegal e se prepara para ir à Etiópia.

tempo


- Eliza

- Retíña

- Dílza

Assim chamavam a cunhada e a filha de Marcolina. Num quarto com uma cama de casal muito bem arrumada, uma TV com imagem chiada, um leitor de dvd com tela reproduzindo um vídeo clipe, uma mesa de quatro lugares. A casa inteira naquele quarto. Fui perguntar para Dilza se podia acompanhá-la ao chafariz* para gravá-la pegando água. A mãe já me havia avisado que ela era muito tímida - "nem comigo ela fala" - e eu fui com a certeza que aproveitaria estar ali - periferia de Praia, capital do Cabo Verde - para conhecer outra personagem para a matéria. Mas os olhos profundos e rasgados da menina de 14 anos me apaixonaram e achei que mesmo sem muitas palavras dela valeria acompanhá-la. A mãe lhe explicou em crioulo e Dilza cobriu os rostos e o sorriso com as mãos, baixando a cabeça. Mas só se você quiser, se não não tem problema, deixei claro. Mais uma frase em crioulo e do sorriso que lhe cortava a cara veio um sim, ela queria. Mas então como marcamos perguntei levantando possibilidades num português pausado e doce. Se seguiriam algumas eternidades de silêncio delicadamente entrecortados por sorrisos encobertos por mãos. O bebê no colo de Ritinha me olhava tentando prever meu próximo passo. Ali entendi com o corpo que enfim havia aterrisado no outro tempo de qual tinha lido.

As coisass na África, generalizando bem já sei, me contava Rysard Kapuscinsky em Ébano, não é algo em si, este outro que nos engole nas Américas e Europa. Aqui o tempo é algo junto do homem e as situações acontecem. Não se pergunta que horas sai o ônibus - o ônibus sai quando está cheio e portanto o tempo é inerente e colado a situação e não um terceiro autoritário a ditar ordens. A hora da entrevista, da mesma forma, seria a hora que tinha que ser. Mas meu tempo ditava-me apenas mais cinco dias na capital, seis dias para a edição de Cabo Verde, um dia de trânsito e dois dias num hotel em Dakar para ter boa conexão de internet para enviar as matérias para o Brasil. Eu servia a este tempo, de cabeça baixa e ombros arqueados a frente, e ali no quarto casa, nos olhares calmos e amendoados dois mundos se chocaram. E como fez a história toda até aqui eu, branca, sangue do norte, mais dinheiro na conta, conclui: então sexta feira, 11 da manhã e me embrenhei feliz nas ruas sem nome e sem asfalto.

ps: na sexta feira, 11 da manhã, a resposta: não havia água no chafariz. o balde voltou vazio, a personagem principal da matéria se tornou então, a pequena windia.

*chafariz em cabo verde são os poços onde as mulheres buscam água.

15 de setembro de 2011

a lua, o mar, a terra, o bafo

Na janelinha o céu se avermelhava. Gravava aquilo e observava um ponto de luz: maldito reflexo no vidro. Quando baixei a camêra vi que não, que era ela: cheia, toda, flutuando no alaranjado, voando sobre as nuvens que gravitavam sobre o mar. Vinha o anuncio dos sorrisos dos próximos dias, da enfim chegada!

Quando as rodas atritaram na pista palmas e uhus se animaram dentro da nave. Quando a porta se abriu em Praia, Cabo Verde, um bafo úmido de Africa me sussurrou, já em tempo: bem vinda!

14 de setembro de 2011

sobre o pânico

era domingo de carnaval. por um momento lembrei do ano anterior, no rio, no boitata. na minha cabeça se repetia: atravessamos o deserto do sahara, o sol estava quente e queimou a nossa cara…. ala la ô o ô o ô o ô…. cantava sozinha enquanto marchava na imensidão das dunas que separam o marrocos da algeria. me divertia com aquelas nuvens de areia que me cercavam, com estar tão só. caminhava já há duas horas, acho. nem um camelo mais via. o sol se foi e o luso fusco não trouxe o outro grupo que passaria por aquele caminho com quem seguiria para o acampamento nómade onde havia dormido na noite anterior e pretendia dormir naquela. com a luz que se ia, chegava a certeza de que eu estava no bloco errado. melhor voltar. as marcas de meus passos pisados em cima de tantas patadas e cacas de camelo me conduziam até as dunas de onde já se avistava as poucas luzes da cidade de Merzouga. não havia o que temer. tinha litro d'água, lanterna carregável com o xuque xuque da mão, casaco. no máximo chegaria num hotel errado e pediria ajuda. mas por alguns momentos, num silêncio gritante, num escuro cego, sentia ele chegar perto: o pânico. sempre lhe dava um chega para lá antes que fosse tarde demais. e ali nas duas horas de volta, entre planejar o resto da existência, rir por estar vivendo aquilo, não pensar em nada, tive tempo de pensar um pouco sobre estas situações em que ele se apodera.

acho que a última vez em que senti pânico barra pesada foi há umas quatro semanas, na minha chegada no marrocos. estava hospedada num hotel lindo no meio da medina de rabat - a cidade antiga e cercada. era uma da manhã, horário que meninas não andam sozinha no país. só homens nas ruelas por onde não passam carros e onde a arquitectura tinha por objectivo criar labirinto para os estrangeiros de outros séculos. eu era a nova estrangeira. desviava os olhos de todos e de tanto não olhar perdi a entrada do hotel. caminhei mais alguns minutos até entender que realmente estava perdida. numa porta com luz parei para ver o mapa. três homens que passavam, pararam. o pânico então me abraçou e me puxou para fora da luz. comecei a andar. eles me seguiram. parei, voltei. eles pararam, voltaram. um falava em árabe comigo. parei onde havia duas mulheres mais velhas, as únicas mulheres do trajecto. elas me olharam sem reacção. os três pararam e o que falava começou a em francês me perguntar se eu tinha esquecido de tomar meu remédio. ou ao menos foi isso que meu batimento a uns 200 por minuto me fez achar que foi. ele não parava de falar. continuei andando e então vi um menino com cara de bom menino. ele virou na ruela da esquerda e sua sombra começou a andar lentamente. meus pés andaram rápido. ele parou. pedi ajuda, ele voltou comigo. com um homem do lado os outros se foram. o pânico soltou um pouco meus ombros e segurando minha mão me deixou chegar no hotel. fechei a porta do quarto e com ele, o pânico, me olhando da poltrona chorei com um medo que já havia esquecido que existia e que esperava não mais sentir nesta viagem.

assim, ali no deserto lembrei que o único perigo estaria dentro e que bastaria me entregar a aquele abraço para que eu perdesse os passos dos camelos no chão, não enxergasse mais as luzinhas de Merzouga, tropeçasse e torcesse o pé. e com uma serenidade que adoro - mas que nem sempre está assim tão próxima - vi aquela situação inteira como um resumo da vida: onde se pode resolver ou complicar; viver intensamente o que está posto ou pirar e perder-se; onde pode tentar se encontrar ou, por medo de sim , por medo de não, se distanciar do que se realmente deseja. passo a passo fui chegando nas lamparinas. bati no hotel errado. dois moços de turbantes azuis me levaram com lanterna até a minha casa temporária. conheci duas inglesas, sentei na mesa delas e comi um tajine enquanto o chico do hotel ligava para o chefe que rondava de carro me procurando e o guia que já havia ligado avisando que não me encontrou para dizer em bom árabe mesclado com berber que eu estava ali, inteira. e tudo se resolveu. como a vida, quando assim se quer.